segunda-feira, 15 de junho de 2015

11.6 - Minas. Tiradentes


Tiradentes - fachada da Matriz refletida na vidraça com crochê
Volto a Tiradentes depois de tantos anos. Chegamos ao entardecer depois de quase 200 km por estradinhas sinuosas, sempre acima de 1.000 metros de altitude, fornecendo horizontes infinitos e azulados.

Nossa pousada, Recanto de Minas, fica no Centro Histórico, bem ao lado de onde - um dia - foi o Bar da Dona Nini, onde trinta anos atrás, eu, Cecilia e d'Ávila passamos um Carnaval com cerveja, cachaça e linguiça com pimenta. Viajar é isso também: resgatar memórias.

Largo das Forras no Centro Histórico


Tiradentes continua charmosa como sempre em seu centro histórico. Depois de razoavelmente alojadas e já escuro, saímos para uma caminhada pelas ruas iluminadas por lampiões. Como era noite de domingo e ao final de um evento de vinho e jazz , todos os restaurantes estrelados estavam fechados. Pena!  Fizemos a volta no circuito a partir do Largo das Forras, e - na rua Direita -  conhecemos a Igreja de Nossa Senhora do Rosário,   construída e frequentada pelos escravos com seu altar central e laterais em estilo barroco mineiro e cobertos em ouro e o ateliê do artista plástico Sergio Ramos.Gostei dele, de sua conversa, de suas pinturas.

Com os restaurantes fechados, restou olhar suas fachadas e possibilidades. Um grande ipê rosa, exuberantemente florido resplandecia na ladeira, abençoando-nos.

Rua Direita com ipê florido
De tirar o fôlego e purificar a alma!

Foi ficando frio e frio, afinal estamos em junho. Acabamos parando num dos barzinhos abertos no largo das Forras, para o primeiro contato com a gastronomia mineira; pastel de angu recheado com umbigo de bananeira!

Iguaria mineira: pastel de angu recheado de umbigo de bananeira



Dia seguinte nos deixamos encantar pela paisagens das ruas, da fachada ads igrejas, pelo horizonte coberto pelo paredão rochoso da Serra de São José. À medida que o sol ia subindo a cor do céu ia se tornando mais azul cobalto. Deslumbrante!

Solar à beira da ponte sob céu azul cobalto

domingo, 14 de junho de 2015

11.5 - Minas. Era domingo

Começamos a viagem numa manhã iluminada de outono. Sol brilhante e céu esplendorosamente azul, como só o céu de junho pode ser.

A partir de Cruzeiro, iniciamos a subida da Serra da Mantiqueira. Bela estrada! Picos agudos, talvez por volta de 2 mil metros.... Curvas, muitas curvas a dirigir a 70 km por hora.

Beatriz, minha companheira de viagem, é ótima na direção; segura. Paramos em Passa Quatro e foi a minha primeira confusão: na viagem de dezembro tinha certeza que estivemos em Pouso Alto. Por isso a opção de conhecer Passa Quatro. Qual o quê!
Sempre paramos em Passa Quatro!

Igreja Matriz em Passa Quatro - MG
Café expresso para finalizar a parada de conhecer a igreja de paredes nuas e santo indefinido no altar (Cláudia, onde está você que conhece, ora e é amiga de todos os santos?) e depois seguir viagem.

Abandonávamos as Terras Altas da Mantiqueira e seguíamos para o Circuito das Águas: 4 cidades com águas medicinais: Lambari, Cambuquira, Caxambu e São Lourenço. Nestes tempos de medicina tecnológica curar-se em águas medicinais tornou-se obsoleto. Os balneários se esvaziaram e as cidades se tornaram decadentes. 

Paramos para almoçar em Caxambu; esperávamos encontrar uma velha senhora refinada enfeitada com colar de pérolas. Nada disso! A cidade cheira bosta de cavalo das charretes que levam os turistas. O balneário era caro ( R$ 80,00 por uma massagem de meia-hora), mal cuidado e cheio de ambulantes vendendo panos de prato kitsch na entrada. 

Hora de mudar de calçada.

Resistindo à decadência, com a silhueta de sua elegante torre mourisca contrastando com o azul cobalto do céu, o Hotel Glória se mantém impávido. Construído na década de 50, do século passado, para ser um cassino, ainda hoje mantém certo refinamento. Tapetes persas, poltronas com design preenchem salões e varandas construídos em estilo espanhol. O público hoje é basicamente o de Terceira Idade fazendo turismo rodoviário em ônibus imensos. Foi-se o tempo que casais em lua-de-mel, apaixonados e sorridentes preenchiam seus salões.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

11.4 - Minas. Patrimonio Mundial da Humanidade

A UNESCO, órgão das Nações Unidas para a cultura patrocina a divulgação, mediante o selo Patrimônio Mundial da Humanidade, de locais ou expressões culturais com importância de preservação na memória de um povo.

Estes patrimônios abrangem o campo da cultura - Patrimônio Cultural -, das expressões vivas de um povo - Patrimônio Imaterial - e de locais especiais - Patrimônio Natural.

O Brasil tem 19 sítios catalogados como Patrimônios da Humanidade: 12 como Patrimônio Cultural e 07 como Patrimônio Natural. Ainda não recebemos certificação para nenhum Patrimônio Imaterial embora estejam na lista o Círio de Nazaré em Belém ou  " as expressões orais e gráficas do Wajapis".

O primeiro certificação aconteceu em 1980 para a cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Em 2012, a paisagem natural do Rio de Janeiro, entre as montanhas e o mar recebeu o último carimbo. Paraty está na lista de espera há mais de 10 anos e eu não sei bem o que está emperrando o processo. Ouvi algo como "a falta de saneamento básico" mas não consigo afirmar isso. requer mais pesquisa....

Minas saiu na frente com a titulação de Ouro Preto. Em 1985, o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo entrou na lista e depois, em 1999 - o centro histórico de Diamantina. Preciso saber de Tiradentes.... será que como Paraty, está em alguma lista de espera?

Conheci Congonhas no ano de 2001, durante o Carnaval. Estávamos em Tiradentes mas - a cada dia - se tornava mais insuportável ficar lá. Turistas - meninos jovens e ricos, entupidos de álcool - ocupavam a cidade como uma horda de bárbaros. Bebiam o tempo todo e quando as ruas da cidade começaram a cheirar urina, decidimos sair.

O Santuário, em estilo barroco mineiro fica no alto de uma colina. Um pátio em pedra (sabão?) duns 10 metros de largura circunda toda a igreja. Uma mureta duns 50 cm delimita o pátio. Pois bem, ali se assentam OS PROFETAS, a obra máxima de Aleijadinho. Lembro da minha atitude de deslumbramento a olhar cada estátua, cada obra. Seu conjunto, seus detalhes.... Harmonia e perfeição.


Michelangelo tem seu Davi, seu Moisés e a Pietá. Aleijadinho tem os 12 apóstolos! Gênios de mesmo calibre. E Aleijadinho vivia no fim do mundo, nos confins de Minas Gerais no século XVIII. Já Michelangelo vivia entre Firenze e Roma, os centros culturais do século XVI.



Detalhe de escultura de profeta


Mais havia muito mais o que se deslumbrar: descendo as escadarias do pátio, há um caminho circundado por seis capelas, os passos, que representam as Estações da Cruz. No interior de cada capela, Aleijadinho fez esculturas em madeira - policrômicas - arte barroca em um estilo muito original e característico do artista mineiro.  
Vista das capelas






 
Bem, vou falar de Ouro Preto e Diamantina depois, quando chegar lá.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

11.3 - Minas. Indicação Geográfica

Indicação Geográfica é um termo usado internacionalmente para designar um produto de origem agrícola, artesanal ou industrial ou ainda a serviços produzido em uma região específica.

O interesse por este assunto foi concomitante ao meu interesse por vinhos, pois nessa área o terroir é fundamental. E foi o vinho que trouxe essa questão ao Brasil. Em 2002, os produtores de vinho do Vale dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul conseguiram o primeiro IP - Indicação de Procedência para a região. Não foi tarefa fácil; foram 5 anos de trabalho envolvendo produtores, associações e universidades a mapear e caracterizar a região.

O INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial, criado em 1970, é responsavel pela outorga do selo de qualidade. É uma autarquia federal vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior - tendo como missão a responsabilidade pelo aperfeiçoamento, disseminação e gestão do sistema brasileiro de concessão e garantia de direitos de propriedade intelectual para a indústria.

Por ocasião deste post, o Brasil possui 39 Indicações Geográficas, sendo 31 IPs e 8 DOs (Denominação de Origem). Os produtos são os mais variados: os vinhos do Vale dos Vinhedos, o calçado de Franca, os camarões da Costa Negra, no Ceará, a cachaça de Paraty, a empresa de software de Pernambuco... O ultimo produto a conseguir uma IP, em outubro de 2014, foi a cachaça de Abaíra, na Bahia. Prazer em conhecer!

Em Minas, 7 regiões possuem IP para seus produtos e uma DO. O que dá para conhecer? Depois dessa conversa toda, começo a incluir nas minhas viagens além dos locais que são Patrimônios da Humanidade, aqueles que possuem Indicações Geográficas. Duas listas que mostram a alma de cada região.

A primeira IP de Minas Gerais foi em 2005 - o café do Cerrado Mineiro. Em 2011 foram titulados o café da Serra da Mantiqueira e o queijo Minas artesanal de Serro. Em 2012, O INPI titulou os produtos em estanho de São João del Rei, o queijo da Serra da Canastra e a cachaça de Salinas. Em 2013, olha a surpresa da descoberta!, foi concedido IP para os biscoitos da cidade de São Tiago e o café do Cerrado Mineiro conseguiu a primeira DO - Denominação de Origem para Minas Gerais.

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Selo do Café do Cerrado
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IP Café da Serra da Mantiqueira

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IP Queijo de Serro
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IP Estanho de São João del Rei


O que dá para ver nessa viagem?
Provar o café? Com certeza. A cachaça de Salinas? Talvez em algum boteco.... In loco, o estanho de São João del Rei, o queijo de Serro. Na lista, mas ainda indefinido, os biscoitos de São Tiago.

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IP Queijo da Serra da Canastra
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IP Cachaça de Salinas
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IP Biscoito de São Tiago

 

terça-feira, 9 de junho de 2015

11.2 - Minas. Pewter

Pewter é o nome em inglês para a liga de metais composta de 95% de estanho + 3,5% de antimônio + 1,5% de cobre.

Material usado desde a antiguidade, com registro em documentos egípcios e chineses, pois é um material macio, maleável, de fácil manipulação e com baixas temperaturas de fusão (ele começa a perder a resistência a 180° e derrete a 232°, por isso nunca pode ser levado ao fogo.
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Peças em estanho

Desde o século XIV, ele começou a ser minerado na Europa, a partir do minério cassiterita, encontrado em leitos de rios. Era usado em diversos produtos, geralmente utilitários como tigelas, copos e pratos. Nessa época, o estanho era misturado ao chumbo, mas devido à toxicidade deste último, a liga foi paulatinamente abandonada e substituída pela combinação de antimônio e cobre. O primeiro dá resistência e o segundo reforça sua dureza.  Por ser material nobre, semelhante à prata, era amplamente usado pela burguesia das cidades, por volta do século XVIII.

No Brasil, o pewter chegou junto com os portugueses no período colonial, mas a sua produção aqui iniciou-se tardiamente, na segunda metade do século XX, a partir da iniciativa de um inglês, radicado no Rio de Janeiro, John Sommers, em 1968. Hoje ela se concentra totalmente em São João del Rey, em Minas Gerais, onde apenas 8 (oito) empresas exercem a atividade: Del Arte Estanhos, Faemam, Imperial Pewter, John Sommers, Ophicina Pewter e Santa Clara Estanhos. Hoje, são produzidas cerca de 5 mil peças ao mês.
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Logotipo da Faemam
                                                    
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Fachada da John Sommers
                                               
                                              
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Fachada da Del'Arte
                                            

O processo de fabricação é todo artesanal, feito por profissionais qualificados. As peças são fundidas em moldes metálicos, geralmente ferro fundido e depois torneadas e - por fim - recebem dois acabamentos:
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Artesão polindo estanho
                                           
- O polido: é a cor original do estanho, com alto grau de polimento, onde a peça fica toda brilhante e muito semelhante à prata.
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Estanho polido
                                         
- O fosco: seu envelhecimento é conseguido artificialmente, com banhos de imersão em solução ácida, tornando-se fosca.
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Estanho Fosco
                                      

As peças marcadas com o sinal .X., indicam mais alto grau de qualidade e pureza, além da ausência de chumbo.


Em Minas Gerais, as peças mais antigas em Estanho pertencem ao acervo sacro, como castiçais e tocheiros. Em São João del Rey existe o Museu do Estanho John Sommers, responsável pela catalogação e mostra de peças históricas. Como curiosidade, faz parte desse acervo peças resgatadas no litoral da Bahia, a partir do naufrágio de duas naus holandesas - Utrecht e Huys Nassau, em 1648 com grande conjunto de peças de estanharia europeia.
Monumento ao Expedicionário
Sala do Museu do Estanho
                                         

Desde 2012, três empresas associadas à AAPE - Associação dos Artesãos de Peças em Estanho de São João del Rei - contam com o selo IP (Indicação de Procedência) atestado pelo INPI - Instituto Nacional de Produção Industrial e tem valor internacional.

A marca significa reconhecimento de tradição e importância produtiva, por localidades. 39 outras regiões do Brasil atestam esse selo, sendo oito localidades no estado de Minas Gerais; mas esse é outro post.




 




 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

11.1 - Minas. Chegou sua vez.

Finalmente consigo colocar em prática um velho projeto: viajar pelo interior de Minas Gerais. Viajar de carro, viajar devagar. O roteiro planejado é ambicioso: chegar até Diamantina de carro. Mil quilômetros! De permeio, 19 cidades espalhadas na ida ou na volta. Algumas são o reencontro, revê-las após algum tempo, outras é o conhecer, o primeiro olhar... e as montanhas, com mais de mil metros de altitude, como molduras das pequenas estradas rurais, tortuosas e vazias. 

Todos os sentidos estão envolvidos: o olhar geográfico pela paisagem de serras, rios e cachoeiras, o olhar cultural pelo casario barroco dos tempos da mineração, a história desses ricos tempos do Brasil. O olfato a descobrir os cheiros de mato de Minas, suas ervas e temperos. O cheiro da comida que sobe dos fogões... e, a gastronomia que encanta o paladar. E a pele que vai se deliciar nas cachoeiras... E toda a experiência sensorial de Inhotim.

Há um plano geral mas há também a abertura de mudar de roteiro se novos interesses se mostrarem. Sempre descubro mais que esperava andando por Minas. São Thomé das Letras, em viagem de seis meses atrás foi a surpresa das altitudes. De chegar, sem saber, em uma das cinco cidades mais altas do Brasil.

E vamos ao roteiro proposto: sair de Pinda de manhãzinha e fazer a primeira parada em Pouso Alto. Depois Caxambu e seu balneário. 40 km adiante, Airuoca. O que é que essa cidade tem? Cruzília e seus queijos. Ufa, chegar em Tiradentes! O entorno: Santa Cruz de Minas, Prados, São João Del Rey e Rezende Costa com seus milhares de teares às portas das casas. Visitar a indústria de estanho em São João del Rey e quem sabe comprar os desejados cálices em pewter.

Inhotim. Gastar tempo em Inhotim, uns três dias talvez. Contornar Belo Horizonte e - se ainda houver vestígios de Peter Lundt, parar em Lagoa Santa. Seguir para Cordisburgo e Curvelo... chegar em Diamantina.

Começar a voltar por Serro, Itabira, de Drummond e chegar a Ouro Preto. Rever Mariana. Achar a rota para Barbacena e procurar como se volta para casa.

Esse é o roteiro, no plano dos desejos. Tem lógica? 
O caminho se faz ao caminhar..... Momento de refinar as informações para decidir melhor.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

10.15 - Patagonia. Chegou o cartão postal

Em Ushuaia - melhor - no Parque Nacional del Fin del Mundo, há um posto de correio. O mais austral do planeta, localizado na Baía Escondida.



Correo Del Fin Del Mundo

Por bobeira, esquecemos nosso passaporte no cofre do hotel e lamentamos não carimbar nele a lembrança deste lugar único.

Então, compramos cartões postais, de fotos antigas de Ushuaia e mandamos - Antonieta e eu, postais uma para outra, como nos velhos tempos em que viajávamos e, muitas vezes, depois de horas andando e desbravando lugares, nos sentávamos em um café e ficávamos a escrever cartões postais como lembranças de viagem.




Com a internet, isso se perdeu, mas aqui - neste lugar especial, resgatamos parte desse cultura. E o cartão chegou em casa no dia 20 de janeiro de 2005, 23 dias depois de ter sido postado em Ushuaia.