domingo, 9 de setembro de 2012

2.14 - Parque Nacional da Serra da Capivara - superlativo

O Parque Nacional da Serra da Capivara, no sudeste do Piauí foi criado em 1976, após um grande trabalho de pesquisadores que encontraram centenas de sítios com painéis de figuras rupestres em expedições patrocinadas pela França entre os anos 1973 a 1975 e capitaneados por Niéde Guidon. 

São 132 mil hectares que se unem, por um corredor ecológico  ao Parque Nacional da Serra das Confusões (lindo nome!). 

Foram catalogados quase mil sítios arqueológicos e - atualmente - há 172 sítios preparados para visitação.  Legal saber (e ver de perto) que 17 deles permitem acesso aos portadores de necessidades especiais. 

Tudo tem a mão de Niéde Guidon, cada detalhe, cada ação, cada pedaço de estrada, cada decisão de escavação.  Me espantei por não encontrar biografia alguma dela nas lojinhas do Parque. 

Só se entra no Parque com guia e há três associações deles: duas em São Raimundo Nonato e uma, em Coronel José Dias, onde está a entrada do PARQUE. Eles cobram R$ 75,00 por dia e ficam disponíveis para te acompanhar. Normalmente eles escolhem os sítios a serem visitados levando em conta a idade, forma física do turista e horário do dia. Alguns sítios ficam à sombra pela manhã e outros, à tarde. 

Minha guia, Cida Pereira, considerada uma das melhores, tinha 50 anos e é técnica em Paleontologia. Informou que a maioria dos guias tem nível universitário,  principalmente em cursos relacionados ao Parque, mas a experiência conta muito também. 

O Parque contém formações rochosas imensas de arenito, divididas em quatro serras: da Capivara, Vermelha, Serra Talhada e Serra Branca. São as CUESTAS! Pela ação do tempo, da água de um rio que existiu aqui no passado e do vento, as rochas foram escavadas e usadas como abrigo. As TOCAS. Nessas tocas, homens primitivos desenharam figuras rupestres, principalmente com Óxido de Ferro, que lhes dão uma cor vermelha. Na região, os nativos chamam esse grão de TOÁ.

A datação dessas pinturas é de mais de 11 mil anos!! 

Nas escavações foram encontrados sinais de atividade humana (fogueiras e ferramentas feitas de pedra lascada) há 50 mil anos atras!!! É o homem mais antigo das Américas que aqui chegou proveniente da África, via Oceano Atlântico, segundo tese da pesquisadora Niéde Guidon! 

Isso faz os desenhos rupestres aqui encontrados únicos no mundo. Também por isso, ou só por isso vale a pena conhecer o Parque Nacional da Serra da Capivara.

2.13 - O Cu do Mundo

São Raimundo Nonato, no sudeste do Piauí é o Cu do Mundo. Nem é uma expressão desrespeitosa, apenas é o lugar mais isolado que cheguei. O Piauí é um estado carregado de preconceitos no sudoeste do Brasil, no sentido que aqui as relações capitalistas são muito precárias.

Não há indústria, nem extrativista, não há agronegócio, não há praias.... Ensombrecendo ainda mais o quadro, a vegetação é semi-árida, o que significa que o calor é desafiador e há seca, o padecimento a se suportar e conviver.

São Raimundo entra para a história mundial quando Niéde Guidon, há 40 anos atrás, descobre perdidas entre as serras e boqueirões, pinturas rupestres a céu aberto. Foi para conhecê-las que vim.
Não sabia muito o que encontrar no parque; na cidade tinha expectativa zero. Já havia andado pelo nordeste nos anos 80 do século passado numa viagem com a minha amiga Cristina e sabia que os horrores que Graciliano Ramos havia descrito em "Vidas Secas" não eram ficção literária.

Cheguei na tarde de domingo. Alojei-me na Pousada Progresso, logo na avenida de entrada. Local simplesinho, alojamento de viajantes. Baratinho. Tinha ar condicionado e internet, o que é essencial para pessoas que como eu, ficamos wi-fi dependentes.

Não havia energia elétrica na cidade. Xiiiiiii!

Nem ar condicionado, nem internet funcionando.......Bem pior que eu supunha!

Bem, vamos ver o que fazer: o Museu do Homem Americano ficava pertinho, era um bom começo. No museu, outra decepção: ele não conseguia funcionar sem energia. Nada a fazer. Nesse momento encontrei Cida Pereira, uma senhora de mais de 50 anos, fala arrastada, que se apresentou como guia do parque e se ofereceu para ser a minha condutora no Parque.

Não era bem o que eu esperava de um guia. Tinha imaginado um sertanejo de coxas firmes e dorso largo a me contar e mostrar os sinais dessa civilização que aqui viveu. Acabei contratando a Cida. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte, cedinho, na pousada.

Escureceu sem luz. O jegue nos arredores da pousada parecia não se importar com isso, seus movimentos lentos, duma espécie que se tornou inútil quando as motos chegaram, só falavam duma vida abandonada ao léu. E conforme a luz do dia ia sumindo o mais belo céu apareceu: sem nuvens, sem poluição, sem umidade e sem lua, todas as estrelas apareceram. Tudo o que a Natureza negava à Terra, oferecia ao céu. Estrelas.

O Cu do Mundo se vingava me mostrando o mais belo céu possível.

2.12 - Segunda parte: rumo ao Piaui

Enfrentar a estrada Petrolina  a Sao Raimundo Nonato, no Piauí, pela rota de Remanso, onde 80 dos 350 km sao feitos em uma estrada deserta e descalça, atravessando a Caatinga inóspita, eh como se caminhássemos ao Cu do Mundo.

Com a construção da barragem de Sobradinho, algumas cidades foram realocadas em lugares diferentes, construindo uma nova geografia no lugar. Isso originou uma estrada asfaltada e moderna para os padrões locais, na região mais ao norte da Bahia, ligando Casa Nova a Remanso.

Depois essa rota vira para o norte até a fronteira com o Piauí, de estrada sem pavimentação, em plena Caatinga. Foi a primeira vez que cruzei algo tão desértico e inóspito. Dirigia sozinha. Lembro que cruzei Remanso lá pelas 11 horas da manhã, então era o momento de sol a pino e forte intensidade de luz.

Poucos carros, nenhuma casa, um ou outro bode lambendo o chão seco e empoeirado. Por alguns momentos tive medo, sensação de abandono. De que, ali o socorro tardaria.

Inútil procurar árvore de sombra para um descanso, não havia arvore alguma.

Em algum momento, depois de muito tempo, surgiu a redenção: uma pequena guarita e uma placa indicando a fronteira Bahia - Piauí. Fim das dificuldades. Uma estrada azulada de asfalto surgia a minha frente. Qual o que! Apenas alguns quilômetros adiante, tudo se acaba e os pedregulhos, a poeira e as cabras soltas voltam a fazer parte do destino do viajante até a cidade de Dirceu Arcoverde.

Cheguei em São Raimundo Nonato numa tarde de domingo. O que esperar dali, me perguntei. Os próximos dias me darão essa resposta.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

2.11 - Miolo - uma vinícola arrogante

Duzentos hectares (cerca de 80 alqueires ) de uvas plantadas, dois milhões de litros de vinho e o mesmo tamanho em arrogância.

Essa eh a Miolo aqui nas margens do São Francisco.
Produzem vinhos na linha Terranova e, nos últimos meses, num lance de marketing, substituíram o selo Terranova pelo Almaden. Alegaram que a Almaden eh uma marca consolidada no mercado.

Tem também uma parceria com a empresa espanhola Osborne, produtora de conhaque e anis famosos por la.

Não gosto da postura das enólogas que nós acompanham na degustação: são arrogantes, se sentem superiores e demonstram isso na postura, nos comentários. Tão diferentes de vinícolas argentinas, chilenas, italianas, francesas por onde andei. Mesmo o pessoal do Rio Zgrande do Sul eh mais simpático.

A uva que melhor se adaptou em terras baianas do município de Casa Nova eh a Syrah. Dela saiu o Tessardi, um vinho tinto premiado na Expovonos de 2022 como o melhor vinho tinto brasileiro.

Agora, as 3 mil garrafas produzidas nessa safra premiada se esgotou.
Não vai ser dessa vez!

2.10 - Vapor do Vinho

Roteiro criado em fevereiro de 2011, usando a barca Rio dos Currais.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

2.9 - Bodódromo

Nao gosto desse nome assim como nao gosto de apagão, Mineirão e algumas palavras que ficam com sonoridade áspera quando se juntam sufixos como ÃO e DROMO..... Considerações à parte, vamos ao lugar:
As cabras são muito bem adaptadas no semi-árido e o Nordeste tem mais cabras que a França. Qualquer hora encontro essa estatística de Globo Rural. Daí que comê-las ou a seu queijo faz parte da gastronomia nordestina.
Acontece que nós, paulistas, chamamos o macho de cabrito e - os nordestinos - de bode. Semântica apenas, para falarmos do mesmo animal. Nas cantinas italianas de São Paulo se come cabrito ensopado no vinho; aqui se come bode assado.
Mania local, construíram o tal Bodódromo, símbolo da identidade pernambucana. Sucesso total! 8 restaurantes acomodados em L, com espaço para estacionamento no L contrário. A maioria é apenas um galpão aberto e a maior parte das mesas fica do lado externo. Lembrar que nessa cidade chove quase nunca.
Musica ao vivo no mais genuíno forró: sanfona, triângulo e bumbo.
Comida variada e metade dos pratos são baseados no bode servido assado em seus mais diversos cortes: pernil, paleta, lombo. Pedi errado e fui servida num churrasco com os piores pedaços do animal: carne seca e dura. Hoje vou pedir com mais propriedade!
O que acompanha a carne?
Arroz, feijao de corda com farinha e coentro, pirão de leite, pirão de bode, macaxeira cozida, vinagrete. Por curiosidade, pedi paçoca de bode (carne assada triturada com farinha de mandioca). Ventava muito e foi um desafio compartilhar (verbo do garçom) a iguaria com o vento.
A carta de vinhos locais era pobre (o vinho  produzido nessa terra há apenas 10 anos não entrou na cultura gastronomica local) e direcionada ao público local que gosta de vinhos doces. Santo sacrilégio!!!!!!
Ah, na frente de cada restaurante - à guisa de decoração - um casal de animais esculpidos em cimento.

A carta de vinhos era

2.8 - Petrolina em suas entranhas

Cidade plana, de céu azul intenso, poucas ou nenhuma nuvem, vento do rio constante de maio a setembro. Essa foi a melhor surpresa: clima semi-árido e seco, me preparei para um calor infernal. Nada disso! A brisa que sopra diuturnamente deixa a cidade aprazível.

Cidade de 250 mil habitantes, com algumas largas e estratégicas avenidas que fazem o transito fluir. Gastei a manhã andando pela cidade, um pouco a pé, um pouco no carro alugado a R$ 80,00 ao dia. Fui conhecer o centro de artesanato Mestre Quincas onde 3 homens sentados faziam esculturas em pau de umburana(será isso?). O motivo básico são as carrancas (imagens de monstros que eram colocadas nas proas  dos barcos do rio para afugentar os maus espíritos (são muito semelhantes na crença e na forma aos dragões que encontrei na Tailandia), mas também há variações de barcos, anjos e bichos da fauna local. Levo comigo uma carranca como recuerdo.



Depois o Museu. Figuras históricas são Lampião, Dom Malam e Nilo Coelho, em ordem cronológica crescente.Talvez me simpatize mais com Lampião que preenche nosso imaginário como Justiceiro popular, numa terra de oligarquia dura a favor dos coronéis. Lampião morreu em 38 em Angico, Sergipe numa emboscada da policia alagoana. Alinças politicas desse Nordeste! Como documento da morte dele sua cabeça foi decapitada e guardada em formol e mais tarde exposta em algum museu da região. Mesma sorte teve sua parceira - Maria Bonita! Nem faz muito tempo que seus descendentes fizeram um movimento judicial e popular para o sepultamento de suas cabeças que hoje descansam em paz em algum cemitério. Noooossa, nao sei nada da história do Cangaço!



Depois, a Catedral, do visionário Dom Malam. Catedral em estilo gótico, de 800 lugares (sentados) e belíssimos vitrais franceses. Construída na década de 20, quando esta cidade ainda era uma aldeota. Gosto mais dele ao saber que construiu - salesiano como era - grandes colegios para meninos e outro para as moças. Colégios que 90 anos depois ainda sao referencia na cidade. A crítica que se faz hoje aos grandes colégios católicos no Brasil é que eles tiveram ( e ainda têm) a missão de educar a elite. Aos menos desfavorecidos, as escolas públicas do governador Nilo Coelho......