quarta-feira, 8 de novembro de 2017

15.1 - Fernando de Noronha

Consegui!



Fazendo parte do projeto da maior parte das pessoas que curte viajar, Fernando de Noronha habita minha lista há algum tempo. Mas é preciso amadurecer o desejo para que a oportunidade se concretize. Desejo maduro, companhia assegurada, era hora de passar à ação. Não é fácil ir para Noronha. Uma ilha oceânica a 300 km a nordeste da costa de Pernambuco sempre é muito longe. Quase perto do Equador.



Localização da ilha em relação à costa brasileira
A Latitude de Noronha é 3º 50’ 25’’ S, nem é o lugar mais equatorial que visitei. Estou curiosa para reler um post (9.1) meu sobre meus extremos geográficos. Vi. O lugar mais equatorial é Algodoal, no litoral do Pará, com latitude de 1º73'29".

Mapa do Arquipélago mostrando a ilha principal e secundárias com suas baías e praias.

Fernando de Noronha é, na realidade, um arquipélago composto por 21 ilhas, se bem que algumas são apenas rochedos que emergem do mar devido à erupção de um vulcão dezenas de milhões de anos atrás. Tudo muito pequeno, somando todas as superfícies: 26 km quadrados! Algumas ilhas podem ser acessíveis com autorização do ICM- Bio, o órgão federal que cuida dos Parques Nacionais. Afinal, Noronha é um parque nacional marinho desde 1988. Tou curiosa para saber dos financiamentos: o Parque Nacional da Serra da Capivara morre à míngua, com recursos quase zero do ICM-Bio.

Devido a sua formação geológica não há lençol freático na ilha nem fonte de água doce. Toda a água consumida provém da dessalinização da água do mar, da captação de água de chuva armazenada num acude construído para tal e das cisternas instaladas nas pousadas. Em anos de seca, como foi 2016, o açude chega a secar, restringindo em muito a oferta da água. Água potável vem de Recife, num barco que chega todas as terças-feira, nos familiares galões azuis de 20 litros.

Não há solo orgânico. sobre as rochas vulcânicas nada viceja.
Solo vulcânico: pedras e água salgada
Pedras vulcânicas,  base de todos os caminhos em Noronha

Praia com paredão rochoso ao fundo


As praias, de formação sedimentar são resultado do acúmulo durante o período pós-erupção de material calcário oriundo da fragmentação de crustáceos e peixes.

Rochedo ao final da ilha, com buraco que "lembra" o mapa do Brasil, conhecido como Ponta da Sapata
A viagem foi picadinha: PINDA até o RIO, depois BELO HORIZONTE e agora RECIFE, só depois NORONHA. Fuso horário confuso; horário de verão em Pinda, Recife - horário normal e Noronha, uma hora mais tarde...

Confesso que estou um bocadinho ansiosa,  a informação que faremos o último trecho num avião menor e mais antigo, - um ATR - precursor dos jatos atuais, que voa bem mais baixo não me deixa segura. Surpresa boa, a saber logo no embarque em Recife: o avião foi substituído por um EMBRAER, mais moderno e a viagem transcorreu sem problemas.

A chegada à Noronha é confusa: dois aviões chegam ao mesmo tempo, um da GOL e outro da Azul. Como é necessário o pagamento de uma taxa de entrada na ilha ou a checagem do pré-pagamento, as filas se amontoam no exíguo salão..... É uma taxa cara, pois é cobrada por dia de permanência na ilha; R$ 68,74 por dia. Para estrangeiros a taxa é muito maior. Alguém me falou em USD 90/ dia. Consultei a versão em inglês do site oficial, mas eles são mudos sobre o assunto. Comparando a outros lugares turísticos é desanimador: Bagan, em Myanmar custou-me USD 25 pelo período inteiro e Angkor, no Cambodja custou-me USD 63 por 3 dias.... Eh, não é fácil atrair estrangeiros para o Brasil quando nossas políticas públicas são tão vorazes!

Mais alguma coisa ainda estava por vir: acomodados na Pousada do Dodó, corremos para a praia para um banho de mar que nos batizasse por toda aquela lindeza. Chegamos à Praia da Conceição, bem em seu comecinho, onde o Bar do Meio a separa da Praia do Meio. Um banho, o sentar-se para contemplar o por do sol. Merecia uma cerveja, um ficar a olhar a luz desaparecer no horizonte, a contemplar as tribos que chegam à Noronha, a ouvir a música ao vivo... Suave entardecer..... Na hora de pagar a conta, um punhal imobilizante: R$ 66,00 por 2 Heinecker com couvert artístico.

Eh, Noronha é para poucos!


terça-feira, 17 de outubro de 2017

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

14.4 - São Cristóvão - SE

São Cristóvão é uma pequena cidade a 20 km de Aracaju. Ela passou a existir no meu imaginário há alguns anos quando consultava o site da UNESCO, sobre os Patrimônios Culturais da Humanidade existentes no Brasil. E lá aparecia São Cristóvão, em Sergipe.
Como assim? O que aconteceu em Sergipe sem que eu tenha percebido?


A breve descrição do motivo da Praça de São Francisco tornar-se Patrimonio Cultural da Humanidade,estava ali.
Transcrevo, porque vale a pena: 

São Francisco Square, in the town of São Cristovão, is a quadrilateral open space surrounded by substantial early buildings such as São Francisco Church and convent, the Church and Santa Casa da Misericórdia, the Provincial Palace and the associated houses of different historical periods surrounding the Square. This monumental ensemble, together with the surrounding 18th- and 19th- century houses, creates an urban landscape which reflects the history of the town since its origin. The Franciscan complex is an example of the typical architecture of the religious order developed in north-eastern Brazil.


The São Francisco Square, in the town of São Cristóvão, in the North East of Brazil, is an exceptional and homogeneous monumental ensemble made up of public and private buildings representing the period during which the Portuguese and Spanish crowns were united. The São Francisco Square constitutes a coherent and harmonious ensemble which merges the patterns of land occupation followed by Portugal and the norms defined for towns established by Spain. Established in accordance with the length and width required by Act IX of the Philippine Ordinances, this square incorporates the concept of a Plaza Mayor as employed in the colonial cities of Hispanic America, while at the same time inserted in the urban pattern of a Portuguese colonial town in a tropical landscape. Hence, it may be considered a remarkable symbiosis of the urban planning of cities of Portugal and Spain. Relevant civil and religious institutional buildings, the main one being the complex of the Church and Convent of São Francisco, surround the square.




Igreja e Convento de São Francisco
São Cristóvão está tombada tanto pela Unesco quanto pelo IPHAN. Está protegida. Prontinha para receber turistas. Ou quase! Por ser uma tarde de domingo, tudo estava fechado e não tivemos acesso a nenhuma parte interior desse patrimonio. Há alguns guias pelo centro histórico com as informações básicas.

Quando paramos o carro, nosso primeiro movimento foi colocar o João Para correr nessa amplidão, pois havíamos pego 3 horas de estrada.

João correndo na Praça São Francisco
Chegou um guia e ficou de soslaio. Aos poucos, foi chegando e contando a história. E João correndo..... e a conversa foi encompridando, uma historinha aqui outra ali ... e João correndo....
Por fim, ele perguntou:
- Vocês são estrangeiros?
- Não.
- É que vocês entendem tudo o que a criança fala!

Parece Guimarães Rosa, hein?

E a sensação que Paraty foi assim, linda e vazia há 30 anos não nos abandonava. O potencial turístico de São Cristóvão nos afogava. O ser empreendedor aqui dentro se agitava: era hora de comprar imóveis de investir em São Cristóvão. Ah, se fosse mais perto!





sexta-feira, 8 de setembro de 2017

14.3 - Piranhas, Alagoas.

Alagoas ficava do outro lado do rio, da janela do meu hotel. Uma ponte sobre o São Francisco ligava os dois estados - Sergipe e Alagoas e as duas cidades: Canindé e Piranhas. A primeira com população de cerca de 30 mil habitantes e a segunda com 25 mil.

Ponte sobre o Rio São Francisco entre Canindé -SE e Piranhas - AL
Piranhas foi uma doce surpresa; casario português de 300 anos, muito bem conservado e pintado em tons pastel de amarelo, verde, bege e azul, ruazinhas geometricamente cortando o morro em linhas.

Entrada da cidade de Piranhas - AL

Visão do casario em tons pastel

Lampião na porta da lojinha de souvenires

Delicadeza nas linhas e nas cores

Piranhas é fruto direto da Estrada de Ferro Paulo Afonso, hoje desativada.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

14.2 - Canindé de São Francisco

Canindé de São Francisco é uma pequena cidade no noroeste de Sergipe a 213 km da capital. Tem esse nome saboroso por estar à margem do Rio São Francisco e sede da Represa Hidrelétrica do Xingó.

Canindé apareceu na nossa vida por abrigar um dos trechos mais bonitos do rio: seus canyons! São 65 km de rio correndo entre paredões de arenito vermelho, entre Xingó e Paulo Afonso.Belezura!

Carro alugado, Alexandre no volante, João na cadeirinha de trás, seguimos embaixo de céu nublado e tempo ameno.Estrada reta, reta, andamos a 60 metros de altitude.Surpreendentemente verde, apesar de ser região do semi-árido. Tá certo que a catinga floresce verdejante nos tempos de chuva.... lição apreendida nas minha viagens ao Piauí.

No começo, plantações de cana-de-açúcar. Pouca! Depois sorgo... alguns passarinhos pretos a comer grãos ainda no pé.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

14.1 - Sergipe

A oportunidade de conhecer Sergipe surgiu quase do nada, a partir de um convite de Alexandre:
- Terei 4, 5 dias de folga ao fim de agosto, você não quer fazer uma viagem comigo e João?
- Claro, respondi, não perderia por nada. Para onde iríamos?
- Pensei em Tiradentes.
- Ou Visconde de Mauá. Nem conheço.... Acabo parando sempre em Penedo.
- Pode ser de avião, mãe...
- Floripa!
- Muito frio nesta época. Pode ser no Nordeste.
Esqueci o final do diálogo, mas acabamos optando por Sergipe que, de tão esquecido, nunca havia estado lá.

O que não estava previsto é que - à época da viagem - estaria com uma lesão no joelho e mobilidade reduzida. Mas como a proposta seria alugar um carro, avaliei ser viável. E com a previsão de chuva em ARACAJU, embarcamos pela Gol, naquela que seria a primeira viagem de avião do João.

Não acho que João, em seus quase dois anos de idade, tenha compreendido o que significava andar de avião. Ele viu as nuvens, a asa do avião, talvez tenha sentido o frio na barriga naquela curva ascendente em Guarulhos, mas não deve ter associado a nada. Dormiu no fim da viagem e acordou em terra, dentro do aeroporto e não entendeu. 
- Cadê o avião, perguntou?

Alugamos um carro na MOVIDA e começamos a rodar pela cidade; o aeroporto é central, então caímos num bairro que lembrava um pouco Belém, no Pará... chegando ao nosso hotel na orla. Atalaya é o nome duma praia onde a especulação imobiliária não entrou, nenhum prédio tem mais de três andares. Nem nosso hotel, o CELI HOTEL. Adorei a decoração do lobby, muita cerâmica de qualidade, de tema regional.Cangaço, caatinga... Quero todas, pensei.

E, quinze minutos depois, uma tragédia: uma torção no joelho já destruído me botou no gelo e na cadeira de rodas.....




segunda-feira, 17 de julho de 2017

13.43 - Ásia - Ponto Final

Estou em casa, em pleno jet lag das 30 horas de voo. É quase atravessar o mundo! Pergunto-me o saldo. Estive em países que passaram por projetos políticos muito autoritários por longos períodos, muito recentemente e - há muito pouco tempo - se inserem no mercado de consumo. Outdoors da Samsung e da Toyota são muito recentes por lá.

... alguns dias se passaram antes que eu voltasse a este texto; não conseguia fazer uma síntese dessas sete semanas na Ásia. Descolei-me de maneira muito intensa da minha realidade cotidiana que não conseguia amalgamar as vivências a essa superfície rasa que é a vida organizada do dia a dia. Estranhamente não senti saudades da minha casa, das minhas coisas; minha casa ou um quarto de hotel ofereciam o mesmo abrigo.

Mudou a minha energia e isso não se quantifica: tantas massagens, tantos templos, meditação e solidão me colocaram em outro patamar.Percebo que enfrentei muitos desafios: a todo momento tinha de lidar com uma situação em que não conhecia os códigos.

Foi uma viagem substantiva: foram 17 voos, 10 viagens rodoviárias, 232 km de caminhadas, temperaturas maiores que 40 graus em alguns momentos. Tantos voos têm uma explicação: quase todas as vezes que voei de uma cidade à outra, precisava fazer uma conexão em Bangkok. Claro, ficou um roteiro esquizofrenico, pois - muitas vezes - viajava para leste, em latitudes muito próximas e tinha de descer até o sul, até Bangkok e voltar novamente.

Faria outro roteiro? 
- Sim e não. Organizando a viagem aqui no Brasil, este foi o roteiro possível que consegui montar. Lá - depois de conhecer geografias e rotas, percebi que havia muita coisa a mais. Talvez a mudança mais importante seria ter feito Chiang Mai a Luang Prabang por barco, pelo Mekong.... teria sido muito mais interessante!
Mas é muito fácil propor mudanças no passado, olhando de outra perspectiva.... Isso não é a realidade.

Voltaria?
- Mil vezes, Há tanta coisa por se descobrir em outros lugares ou nos mesmos lugares..... outro olhar.... outras ferramentas.

Gastei pouco, bem menos que imaginava:
- passagens aéreas:         R$ 4.905,00
- vistos                            R$   593,00
- hotéis:                          R$ 4.178,00
- comida e outros gastos:  R$ 4.668,00
- tours                             R$ 1.003,00
- IOF                               R$    903,00
Total                               R$ 16.250,00. 
                                     USD   4.973 USD (cambio de 3,268 reais por dólar)

Não contabilizo as compras. É um item muito pessoal, varável de acordo com o dinheiro disponível, o limite de bagagem e a oferta de coisas interessantes. Mesmo usando o cartão de crédito apenas para as compras de aeroporto, o IOF é uma parcela considerável. 900,00 reais!

Vou consultar postagens antigas mas deve ser o mesmo valor que gastei numa viagem de 20 dias na Turquia, há 2 anos. Aqui foram 45 dias!

Ah, mas preciso contar da Guamnyn, a deusa budista da gratidão. Apaixonei-me por sua imagem quando a vi, empoeirada e suja, numa pequena loja de antiguidades em Vientiane, no Laos. Era cara, bem cara, talvez o mais caro mimo que já me dei de presente. Paguei à vista e solicitei que a despachassem para o Brasil. Como já falei, na Ásia, tudo é uma questão de confiança.... há de se confiar. Ela chegou três dias depois da minha volta. Chegou quebrada! Sua coroa frágil não suportou a embalagem inadequada.... 


Guamnym no momento da desembalagem, sua coroa não suportou a pressão.

As peças quebradas e a dor no coração
A transportadora DHL, depois de comunicada, ressarciu-me das taxas alfandegárias (100% do valor do produto). A loja que me vendeu apesar de comunicada por e-mail duas vezes, nem tomou conhecimento. Soube pela DHL que ela recebeu o seguro para repor a peça, mas não aconteceu nada.

Consegui restaurar a peça; paciência, habilidade e materiais certos. Aí, a minha experiência em mosaicos (que é a arte de colar cacos) ajudou muito. Hoje ela enfeita minha sala com serenidade e iluminação.


Guamnyn - restaurada e nobre, iluminando minha sala
Só um sentimento para terminar esta história: Gratidão!